quinta-feira, 16 de maio de 2013

EU AMO O ATOR (de Plínio Marcos)

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de... caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Peter Lorre em "O Falcão Maltes". Genial introdução de um personagem em um filme. Mr. Cairo é apresentado ao detetive Sam Spade. Peter Lorre e seu cartão de visitas, perfumado com... Gardênia..

"Eu sei, mas não devia" Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma. (1972)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

"Namore uma garota que lê ( by Rosemarie Urquico) english version

Date a girl who reads. Date a girl who spends her money on books instead of clothes. She has problems with closet space because she has too many books. Date a girl who has a list of books she wants to read, who has had a library card since she was twelve. Find a girl who reads. You’ll know that she does because she will always have an unread book in her bag.She’s the one lovingly looking over the shelves in the bookstore, the one who quietly cries out when she finds the book she wants. You see the weird chick sniffing the pages of an old book in a second hand book shop? That’s the reader. They can never resist smelling the pages, especially when they are yellow. She’s the girl reading while waiting in that coffee shop down the street. If you take a peek at her mug, the non-dairy creamer is floating on top because she’s kind of engrossed already. Lost in a world of the author’s making. Sit down. She might give you a glare, as most girls who read do not like to be interrupted. Ask her if she likes the book. Buy her another cup of coffee. Let her know what you really think of Murakami. See if she got through the first chapter of Fellowship. Understand that if she says she understood James Joyce’s Ulysses she’s just saying that to sound intelligent. Ask her if she loves Alice or she would like to be Alice. It’s easy to date a girl who reads. Give her books for her birthday, for Christmas and for anniversaries. Give her the gift of words, in poetry, in song. Give her Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Let her know that you understand that words are love. Understand that she knows the difference between books and reality but by god, she’s going to try to make her life a little like her favorite book. It will never be your fault if she does. She has to give it a shot somehow. Lie to her. If she understands syntax, she will understand your need to lie. Behind words are other things: motivation, value, nuance, dialogue. It will not be the end of the world. Fail her. Because a girl who reads knows that failure always leads up to the climax. Because girls who understand that all things will come to end. That you can always write a sequel. That you can begin again and again and still be the hero. That life is meant to have a villain or two. Why be frightened of everything that you are not? Girls who read understand that people, like characters, develop. If you find a girl who reads, keep her close. When you find her up at 2 AM clutching a book to her chest and weeping, make her a cup of tea and hold her. You may lose her for a couple of hours but she will always come back to you. She’ll talk as if the characters in the book are real, because for a while, they always are. You will propose on a hot air balloon. Or during a rock concert. Or very casually next time she’s sick. Over Skype. You will smile so hard you will wonder why your heart hasn’t burst and bled out all over your chest yet. You will write the story of your lives, have kids with strange names and even stranger tastes. She will introduce your children to the Cat in the Hat and Aslan, maybe in the same day. You will walk the winters of your old age together and she will recite Keats under her breath while you shake the snow off your boots. Date a girl who reads because you deserve it. You deserve a girl who can give you the most colorful life imaginable. If you can only give her monotony, and stale hours and half-baked proposals, then you’re better off alone. If you want the world and the worlds beyond it, date a girl who reads. Or better yet, date a girl who writes

"Namore uma garota que lê" ( by Rosemarie Urquico)

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos. Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas. Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro. Compre para ela outra xícara de café. Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gostaria de ser a Alice. É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, E. E. Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade, mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa. É que ela tem que arriscar, de alguma forma. Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois. Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo. Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype. Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas. Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê. Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve"

Arlequim, Servidor de Dois Patrões (parte 7/11)

sábado, 27 de abril de 2013

A commedia dell'arte e sua reoperacionalização, por José Eduardo Vendramini

A commedia dell'arte, tradição de teatro popular que vigorou na Europa durante os séculos XVI e XVII, não somente influenciou inúmeros dramaturgos e companhias teatrais de renome (como a Comédie Française, herdeira de Molière), nos mais diferentes países, como também deixou seu lastro naquelas outras companhias teatrais extremamente populares que, apesar do quase anonimato quanto ao registro histórico nos livros acadêmicos, mantiveram viva, até os nossos dias, a chama da arte ingênua dos saltimbancos, que pode ser detectada no cinema mudo e suas decorrências (Chaplin, Buster Keaton, Laurel & Hardy, Os Três Patetas, comédias da Atlântida, Cantinflas), no circo, no cabaré (com Karl Valentin, que influenciou Bertolt Brecht, em sua fase inicial) e na revista musical. Conseqüência natural de uma linha ininterrupta de teatro popular, que começa com os Flíacos, ainda na Grécia Antiga, passando pelo teatro folclórico e pela Atelana, formas já oriundas da Itália, para não falar das fontes eruditas devidas a Terêncio e Plauto. Depois do seu apogeu, a commedia dell'arte vem pontuando a história do teatro de interferências de graus variados de intensidade, porém sempre inegavelmente significativas, marcando desde a carreira de clássicos como Goldoni (e seu opositor, Gozzi), Molière e Marivaux, como dos modernos que, já no século XX, tanto do ponto de vista da dramaturgia quanto da direção teatral, retomam fórmulas e temas oriundos daquela forma do fazer teatral. É importante notar que, no início do século XX, a retomada do modelo e – conseqüentemente – também dos temas da commedia dell' arte tem uma relação direta com a recusa do naturalismo por aqueles que se opunham à principal tendência do Teatro de Arte de Moscou, então trabalhando sob a égide carismática de Stanislavski. Nesse sentido, pode-se pensar numa homologia: do mesmo modo que, nos séculos XVI e XVII, a commedia dell'arte se opunha frontalmente ao teatro literário que se fazia em palácios (leitura de peças em latim e representação de comédias totalmente escritas na linha da chamada Commedia Sostenuta), no século XX, a retomada da commedia dell'arte como modelo teatral também tem por objetivo a oposição a uma forma extremamente cristalizada de teatro, decorrente da exacerbação dos princípios do realismo pelo naturalismo que, em sua busca da "fatia da vida" no palco, tinha levado a arte em geral e a do teatro em particular ao beco sem saída da pulverização do signo artístico, suplantado pelo "Real" propriamente dito, procurado insistentemente em detrimento de sua representação artística, negando assim o que é, grosso modo, a diferença básica sobre a qual repousa a distinção fundamental entre vida e arte. Forma de teatro pertencente ao passado, com a valorização da improvisação no século XX, decorrente tanto da ação dos grupos de vanguarda (happening, criação coletiva, performance), insatisfeitos com a dramaturgia que lhes era oferecida, quanto das recentes investigações nos campos do psicodrama, da arte-educação e da formação do ator, a commedia dell'arte tem revelado surpreendente modernidade para quem, em princípio, já foi considerada forma estratificada, museológica. Mais uma vez, a própria arte se encarrega de desautorizar abordagens errôneas que lhe são impingindas: corrigindo a perspectiva historicista, diacrônica, que imobiliza no passado o fenômeno da commedia dell'arte, uma das vertente do teatro de vanguarda do século XX, ao recuperar – entre outros elementos – o caráter de improvisação que caracterizava o teatro popular italiano, faz confluírem harmonicamente procedimentos teatrais antigos e modernos, numa atitude arejada e típica de uma postura que identifica não apenas a evolução seqüencial dos fatos, mas recuperações sincrônicas de estruturas fundamentais de momentos básicos da história do teatro, como é o caso da commedia dell'arte. O tema proposto foi estudado, principalmente, por quatro grandes pesquisados: P. L. Duchartre (1955), C. Mic (1927), M. Apollonio e V. Pandolfi. Une-os a preocupação historicista que atravessa, com minúcias, a abordagem que cada um faz da commedia dell'arte, seus antecedentes e suas decorrências. Vale notar que as contribuições de P. L. Duchartre e C. Mic são complementares, devendo ser lidas em seqüência, uma vez que C. Mic questiona e corrige, às vezes de forma veemente, muitos aspectos deixados obscuros ou lançados erroneamente por P. L. Duchartre, discordando dele em pontos fundamentais, o que faz da leitura conjunta de suas obras uma abertura tanto à polêmica quanto à busca da exatidão da informação procurada, no caso, a-histórica. Quanto aos elementos visuais, devem ser especialmente examinadas as reproduções da obra de Jacques Callot, que deixou registrados momentos fundamentais da gestualidade da commedia dell'arte. O conjunto de gravuras de sua autoria, denominado Balli di Sfessania, é um dos mais valiosos documentos para o estudo dos elementos visuais da commedia dell'arte e vem, no geral reproduzido em praticamente todos os livros sobre o assunto, constituindo informação essencial tanto para o pesquisador quanto para o diretor teatral interessado em fazer reviver aquele tipo de teatro. Constituem-se também documentos muito importantes para o estudo do assunto: estampas da época (séculos XVI e XVII); quadros de pintores italianos e franceses, retratando personagens da commedia dell'arte; gravuras sobre cenas teatrais; croquis para projetos de cenografia; fotos de máscaras originais da commedia dell'arte, atualmente depositadas em museus; fotos de tentativas de recriação de máscaras da commedia dell'arte pela família Sartori, já no século XX; a obra de Watteau, retratando o teatro da época de Marivaux; toda a vasta iconografia sobre Molière (e, em menor escala, sobre Goldoni); fotos de encenações modernas de roteiros e peças da commedia dell'arte. Examinando tanto os registros verbais quanto os visuais da commedia dell'arte, fica sempre evidente o seu caráter extremamente popular, o que coincide diretamente com os temas eleitos pelos roteiristas, todos eles vinculados a elementos do cotidiano: o amor, a obtenção de lucro (ou a sua manutenção, por meio do engodo dos incautos e da avareza), a comida e a vida como imigrante numa outra região do país, com os inevitáveis preconceitos dos citadinos contra o camponês, o rústico ou caipira (fato que dá ampla margem à utilização dos mais variados dialetos, elemento fundamental da commedia dell'arte). Assim, poder-se-ia dizer que a commedia dell'arte vive em torno de quatro eixos fundamentais, todos eles diretamente ligados ao dia-a-dia: o amor (e o sexo), o dinheiro (obtenção e manutenção da riqueza), a comida e o trabalho. Como se pode perceber, nenhuma perfumaria, mas muita ênfase na sobrevivência dos deserdados pela sorte, em sua eterna luta para enganar os ricos e tentar tirar deles algo com que viver melhor. Esses aspectos temáticos da commedia dell' arte, somados ao elemento cômico, denominador comum de todos os roteiros (o que lhes proporciona o acesso mais fácil ao universo da sátira), garantem a característica extremamente social dos arquétipos em que os mesmos temas – pela sua reiteração – acabam-se cristalizando. Exemplo do caráter popular/social da commedia dell'arte é a permanência de uma personagem arquetipal – o avarento –, que atravessa a história do teatro desde Plauto (com o Euclião, da Aulularia), passando por Molière (com o Harpagon, de O avarento) e chegando até o brasileiríssimo Ariano Suassuna (com o Euricão de O santo e a porca). Ora, tal personagem tem no Pantaleão da commedia dell'arte uma de suas variantes mais nítidas, podendo ser ele considerado tanto o elemento catalisador de traços típicos de personagens semelhantes que lhe são anteriores quanto o modelo do qual partem as posteriores. Como a essa personagem sempre se opõe uma outra, no geral pobre, esfarrapada e faminta (Arlequim), ou jovem e apaixonada (o Enamorado da filha de Pantaleão), estabelece-se, com clareza e simplicidade, a oposição entre as classes sociais, tema ao qual se juntam outras ressonâncias (filosóficas, antroplógicas, sociais, sexuais), que N. Frye (1973) estuda com brilhantismo em seu Anatomia da crítica. Se, na Itália, a commedia dell'arte tinha relação direta com os temas vinculados ao cotidiano, o que evidencia seu caráter extremamente popular, já na França diminuiu sua eficácia social, tendendo o espetáculo para os elementos de pura diversão – razão direta, entre muitas outras, da sua decadência. Elemento notável, no entanto, é a coragem de certas manifestações de companhias de commedia dell'arte, que encenavam peças dirigindo críticas diretamente a figuras conhecidas da época, como à protegida do rei Luís XIV, Madame de Maintenon, satirizada em La fausse prude pelos Comédiens du Roi, o que ocasionou a expulsão da companhia da França (fato ocorrido em 1697 e retratado por Watteau num quadro do qual resta atualmente apenas uma cópia, em gravura). Oscilando entre a contundência da sátira social (principalmente em seus primórdios, ainda no século XVI), muitas vezes resultando em virulentas e ousadas denúncias pessoais – como a que se acabou de citar –, e o outro extremo, o do cômico pelo cômico, a commedia dell'arte tanto cumpriu uma função "prática" (no geral, coibida pela censura) quanto se permitiu o luxo da diversão pura, descobrindo e fixando as leis do cômico em fórmulas dramatúrgicas que iriam ainda ser utilizadas muitos séculos depois, em obras seguramente menos ingênuas, porém estruturalmente redutíveis àqueles modelos deixados como herança pela commedia dell'arte. Fenômeno essencialmente popular, cheio de bufonarias e valendose de intrigas amorosas no geral complicadas, porém sempre interessantes, o espetáculo da commedia dell'arte recorre a efeitos de inequívoca teatralidade, sem meios-tons, incluindo não só fatos da realidade (às vezes representada em seus aspectos fisiológicos e sexuais os mais grosseiros), como também intervenções de invejável eficácia cômica, de que as acrobacias são talvez o melhor exemplo. O ator de commedia dell'arte devia ser capaz de fazer contorções, piruetas, cambalhotas, saltos mortais. (Um ator incapaz dessas artes estaria praticamente impossibilitado de representar o Arlequim servidor de dois amos, de Goldoni.) Silvio D'Amico nos informa, em Storia del Teatro Drammatico, que o Scaramuccia Fiorilli, com 83 anos, ainda distribuía chutes aos interlocutores com a planta do pé. Ainda nesse aspecto – as acrobacias –, há referências que remetem imediatamente aos números circenses (o que evidencia o filão popular a que pertencem tanto a commedia dell'arte quanto a arte do circo): era comum, na commedia dell'arte, um ator dar uma cambalhota no ar com uma garrafa cheia de vinho na mão sem derramar uma só gota. Eletrizada, a platéia com certeza devia ficar profundamente gratificada por tanta diversão. O espetáculo da commedia dell'arte era de fácil compreensão por seu perfil muito nítido das personagens, tipi fissi mascarados – com exceção dos enamorados, que não usavam máscara e falavam o italiano de Florença –, facilmente reconhecíveis pela platéia, uma vez que se repetiam de peça para peça, variando apenas o roteiro. O ator-mímico que as representava era perfeitamente adestrado na arte de representar, improvisar, cantar, dançar, declamar versos, fazer acrobacias; enfim, era aquilo que modernamente se convencionou chamar de "ator total", "completo". Mas, o espetáculo da commedia dell'arte tinha muitos outros recursos para encantar a platéia. Um deles era a flexibilidade para incorporar ou corrigir reações desta pelos lazzi (truques, manobras bufonescas desvinculadas da trama, pequenas cenas de ação rápida e cômica com o objetivo de provocar gargalhadas ou dar tempo para os demais atores realizarem tarefas necessárias, como trocar de roupa). Esses momentos de pura comicidade podiam ser introduzidos livremente em qualquer enredo, desde que o ator sentisse a conveniência ou a necessidade de fazê-lo. A commedia dell' arte utilizava, no mais alto grau, todo e qualquer tipo de recurso cômico, do mais delicado ao mais grosseiro, desde que fosse obtido seu grande objetivo, o agrado do público. A presença de danças e canções, de caráter folclórico e facilmente reconhecíveis pela platéia, colaborava para o mesmo fim, somando-se à utilização cômica da diferenciação lingüística dos vários dialetos que grassavam por toda a Itália e que serviam para identificar a origem das personagens. Motivo de interesse e oportunidade maior para o cômico verbal, a utilização dos dialetos servia para dar vazão a um problema social da época, a presença do emigrado nas grandes cidades. Finalmente, esse tipo de espetáculo acontecia ao ar livre, com cenografia simples, no geral um telão pintado, representando uma rua, montado sobre um estrado que também servia de camarim para os atores. Adequado para o caráter ambulante das companhias, que atravessavam a Europa de feira em feira, essa solução cenográfica servia perfeitamente a um espetáculo baseado na arte do ator, na mecânica do efeito teatral e na ação propriamente dita, componentes de inegável eficácia cênica, apesar da precariedade dos meios materiais que lhes dava suporte. Em síntese, o espetáculo da commedia dell'arte colocava em evidência o signo teatral, abandonando por princípio qualquer tentativa de ilusionismo. Em seu estado puro, já era a manifestação – ancestral, portanto – de uma das correntes do teatro moderno, que privilegia os signos cênicos em detrimento dos signos verbais, extremamente valorizados num outro tipo de teatro em que se concebe a arte da encenação como ilustração da dramaturgia. Guardadas as profundas diferenças que caracterizam cada um deles, pode-se pensar que a commedia dell'arte antecipou, na prática, o que só muito tempo depois viria a ser teorizado (e praticado, no caso do diretor russo) por Meyerhold e Artaud, que preconizavam um teatro que nascesse do próprio palco, independentemente da dramaturgia. Mic (1927) nos informa que o traço característico da comédia italiana são suas personagens claramente definidas, quase invariáveis, que se reduzem a alguns tipos fixos (tipi fissi), chegando a haver total simbiose entre nome do papel, pseudônimo artístico, nome próprio e nome de personagem, como é o caso da personagem Isabella, criada pela memorável Isabella Andreini, uma das mais curiosas figuras da história da commedia dell'arte. Os atores passavam muito raramente de um gênero de papéis para outro, cada um conservando o seu até a velhice, como é o caso do ator Zanotti, que representou o enamorado Ottavio até os 70 (quando era chamado de "il vecchio Ottavio"), ou de Giovanni Pallesini, que representou o criado cômico Pedrolino até os 87 anos. Ainda segundo Mic, uma típica companhia de commedia dell'arte teria a seguinte composição: dois velhos (Pantaleão, Doutor); primeiro zanni (Brighella); segundo zanni (Arlequim); o Capitão; Primeiro Amoroso (Innamorato); Segundo Amoroso; Primeira Dama (Donna Innamorata); Segunda Dama; Soubrette (Fantesca). De início, as companhias eram formadas por um grupo composto de dez a quinze membros. Com o passar do tempo, esse número vai aumentando. Um dos principais recursos para a obtenção do cômico era a fala dialetal das personagens, procedimento que, já nas Atelanas, fazia rir os romanos, para quem a língua dos oscos soava rudemente. O uso das máscaras divulgou-se rapidamente. Elas não constituíam uma novidade, pois no Carnaval e festas aparecia uma grande quantidade delas. As máscaras eram feitas de couro molhado e eram fixas num molde, que compunha os mínimos detalhes do rosto. O ator perdia as possibilidades de expressão facial, pois, em vez de explorar a individualidade, assumia um tipo conhecido por todos. As máscaras da commedia dell'arte não exprimiam sentimentos como as do teatro chinês ou japonês, mas tinham um caráter invariável, obedecendo a uma imagem-tipo. Em cima desse tipo, e adaptando-se às exigências do efeito cômico, o ator improvisava. As personagens da commedia dell'arte têm perfil psicológico rudimentar. Seus traços são sínteses arquetipais das principais funções em que se dividiam as pessoas, naquela determinada sociedade. Pantaleão é o comerciante veneziano rico e egoísta, sempre à procura de jovens donzelas. Avarento, fraco, é de mentalidade estreita. O Doutor é o jurista de Bolonha, professor da universidade e erudito. Distingue-se pelo gosto da bebida e do falar, no qual mistura a estupidez com a sabedoria de aparência. É a imagem da falsa ciência. Veste-se de branco e preto: chapéu preto de abas largas, uma grande guarnição de renda branca no pescoço, punhos brancos, meias brancas e sapatos pretos. Brighella é a mola da ação na cena. Inteligente, astuto, malicioso, espirituoso, sabe tirar proveito de tudo e de todos. Arlequim é simples e ingênuo. Sempre alegre, não se perturba com nada nem com ninguém. Mais tarde, será retratado com uma inteligência mais aguda, em que a ingenuidade será uma arma de sua astúcia. Pulcinella é invejoso e impotente. Suas maldades são temperadas com libertinagem. Fantesca, a princípio, é a bronca e espantada camponesa descobrindo a cidade. Mais tarde, mudam seus trajes e suas maneiras: torna-se esperta e viva, numa evolução que se assemelha à de Arlequim. Colombina, a mais famosa das Fantescas, não usa máscara. Sempre havia um par de Enamorados e, nas companhias mais importantes, dois pares. São pessoas instruídas, muito lidas, sabendo de cor versos e canções e tendo o domínio de instrumentos musicais. Vestem-se com elegância e na moda. Não trazem máscaras e os atores que os representavam deviam ser bonitos. O Capitão assemelhase ao Miles Gloriosus de Plauto. Trata-se de um egoísta e presunçoso no falar. Porém, na hora da ação, mostra-se um covarde, cuja espada nunca sai da bainha, visto estar soldada nela. Era uma sátira contra a opressão e violência do exército espanhol, que ocupava a Itália, reforçada pela semelhança exterior entre a personagem e o oficial das tropas espanholas. Pedrolino, na Itália, é um zanni, um simples criado. Mais tarde, evolui para Pierrô, já segundo as condições do ambiente francês. Tartaglia foi usado como sátira a algum membro da administração civil espanhola. Aparecia como um notário, um pequeno empregado público, representante da administração aldeã. Ao contrário da commedia sostenuta ou erudita, a commedia dell' arte tinha na improvisação a tônica de seus espetáculos. Como decorrência, da época áurea da commedia dell'arte não restaram senão roteiros, libretos em que eram demarcadas as cenas apenas quanto às entradas e saídas dos atores e suas ações principais, e não textos dramaturgicamente acabados. Com o passar do tempo, alguns momentos mais elaborados (principalmente os monólogos dos galãs, os Enamorados) começaram a ser escritos nos chamados Zibaldoni. O caráter improvisado do espetáculo da commedia dell'arte dependia de atores profissionais, cheios de espírito, ágeis e sempre capazes de uma resposta pronta para qualquer eventualidade. Cumpre lembrar que, mantendo seu caráter de improviso, as companhias de commedia dell'arte tanto se livravam dos cerceamentos da censura (como censurar um espetáculo, se não havia comprovante do que foi dito?) quanto mantinham preservadas as suas invenções, impedindo, assim, que houvesse roubo de idéias. O caráter de semelhança que, no entanto, persiste, quando se comparam as diversas companhias, deve-se ao substrato sociocultural comum a todas elas. Num primeiro momento, tirava-se da comédia erudita (sostenuta) idéias para os argumentos, libretos ou roteiros. Já num segundo momento, desvinculada da comédia erudita, a commedia dell'arte volta às farsas antigas e aos mistérios medievais (com ênfase para as falas dos diabos), à procura de material bruto, tanto para suas improvisações quanto seus roteiros e lazzi. Os lazzi eram truques ou manobras bufonescas, desvinculados da trama, executados durante a preparação dos demais atores para o prosseguimento do espetáculo, distanciando e divertindo o público, e ocorrendo, em geral, no final do primeiro e do segundo atos. Pequenas cenas bufas de ação rápida e cômica, com o objetivo de obter gargalhadas do público, renovando assim o interesse pelo espetáculo, ou então dando tempo para os demais atores executarem tarefas necessárias, os lazzi têm fornecido aos estudiosos motivos para longas polêmicas, sobretudo sobre a origem etimológica do termo. O consenso maior vê na palavra lazzi sempre a idéia de ação/ações (l'atto/gli atti; lazzo/lazzi), com o que concordamos. Os lazzi são momentos de pura comicidade (os mais famosos são os da Mosca, da Pulga e do Macarrão), que continuaram existindo através dos tempos nas cenas mais cômicas de Molière (o antológico episódio da personagem dentro do saco, em As artimanhas de Escapino), nas gags visuais do cinema mudo (Charles Chaplin, Laurel & Hardy), nas entrées de palhaços de circo, nos esquetes de cabaré (Karl Valentin) e do teatro de revista de caráter mais político-social. O engodo e o qüiproquó são os dois recursos mais utilizados pelos roteiristas de commedia dell'arte. O tema do engodo, no geral, coincide com o da traição amorosa. Esse, por sua vez, em seus desenvolvimentos cômicos, vê-se plasmado em inúmeros qüiproquós, que não somente complicam a intriga, enriquecendo-a, como também proporcionam aos atores as mais variadas combinatórias para que se possa explorar o cômico de situação. Como o tema da traição amorosa vê-se duplicado pela recíproca, ou seja, pelo tema inversamente proporcional do enganador enganado, deduz-se que a commedia dell'arte vale-se com mestria daquilo que Bergson (1960) posteriormente qualificou de "cômico pela repetição", que pode ser também exemplificado tanto pela repetição de uma mesma situação quanto pela inversão simétrica dos papéis: o traidor traído, o ladrão roubado, o enganador enganado, e assim por diante. Esse tipo de recurso cômico é enriquecido pelo uso constante do qüiproquó (confusão entre objetos ou pessoas tomados uns pelo outros, com os conseqüentes equívocos que podem nascer desse tipo de situação, sempre muito engraçados), que, na commedia dell'arte, vem no geral problematizado pelo disfarce, um dos recursos mais tradicionais da história do cômico, chegando aos nossos dias, já diluído, aos programas humorísticos e às novelas de televisão. Ao lado dos recursos cômicos quanto a intriga, os roteiros da commedia dell'arte também registram outros elementos pertencentes ao universo do humor, com especial ênfase para a malícia e a obscenidade, características que se aproximam das narrativas curtas do Decamerão, de Boccaccio, e que favoreceriam uma sistematização maior, à semelhança daquela feita por Propp em Morfologia do conto fantástico, sistematização essa vislumbrada por Silvio D'Amico, em Storia del teatro drammatico, no que diz respeito à intriga amorosa. Em sua ânsia de agradar, a commedia dell'arte não hesitava em fazer aparecer em cena elementos absurdos e intervenções mágicas, o que harmonizava com o clima geral de féerie. Por outro lado, a alusão ou mesmo representação de fatos fisiológicos e sexuais mostra que a commedia dell'arte também não vacilava diante de qualquer tipo de recurso mais grosseiro, desde que lhe garantisse o efeito desejado e, conseqüentemente, o agrado do público. De um outro ponto de vista, deve-se lembrar que o nascimento da commedia dell'arte tem íntima relação com o Carnaval, herdando dele, portanto, o direito à total liberação, tanto sexual quanto social (as máscaras eram a síntese de tipos sociais, satirizados pelo teatro). A iconografia do Carnaval, de Brueghel às fotos do Carnaval carioca, comprova tanto a liberação sexual quanto a social, ambas inerentes a esse tipo de festa. Todos esses elementos reunidos deram origem a um tipo de teatro extremamente popular, em que pesavam igualmente o caráter social e a mais pura diversão, muitas vezes plasmada em formas grotescas e obscenas, com os homens dessacralizados e reduzidos à igualdade mais baixa, onde não cabe nenhum tipo de heroísmo. Analisados a partir do aparato teórico dado por N. Frye em seu Anatomia da crítica (1973), os roteiros de commedia dell'arte são capazes de revelar que tudo aquilo que, à primeira vista, não passaria de simples recurso cômico, pode mudar de função e transformar os mesmos roteiros em documentos sobre as relações pessoais e sociais, numa determinada época, ou em registros do que as coletividades de então estariam desejosas de ver acontecer (o pobre enganando o rico, o moço vencendo o velho, o mais esperto vencendo o mais poderoso, e assim por diante).

Arlequim, Servidor de Dois Patrões (parte 6/11)

sábado, 13 de abril de 2013

Ionesco

Eugène Ionesco (Slatina, Roménia, 26 de Novembro de 1909 — Paris, 28 de Março de 1994) foi um dos maiores patafísicos e dramaturgos do teatro do absurdo. Para lá de ridicularizar as situações mais banais, as peças de Ionesco retratam de uma forma tangível a solidão do ser humano e a insignificância da sua existência. Filho de pai romeno e mãe francesa, Ionesco passou a maior parte da infância na França, mas no princípio da adolescência regressou à Roménia onde se formou como professor de francês e casou em 1936. Em 1928, na Universidade de Bucareste, conheceu Emile Cioran e Mircea Eliade, e os três tornaram-se amigos de toda a vida.É considerado, com o Irlandês Samuel Beckett, o pai do teatro do absurdo, segundo o qual é preciso ‘’para um texto burlesco, uma interpretação dramática; para um texto dramático, uma interpretação burlesca’’. Porém, além do ridículo das situações mais banais, o teatro de Ionesco representa de maneira palpável, a solidão do homem e a insignificância de sua existência. Ele não queria que suas obras fossem categorizadas como Teatro do absurdo, preferindo em vez de absurdo, a palavra insólito. Ele percebeu no termo insólito um aspecto ao mesmo tempo pavoroso e maravilhoso diante da estranheza do mundo, enquanto a palavra absurdo seria sinônimo de insensato, de incompreensão. «Não é porque não compreendemos uma coisa que ela é absurda», resumiu seu biógrafo André Le Gall. Regressou à França em 1938 para concluir a sua tese de doutoramento. Apanhado pela eclosão da guerra, em 1939, Ionesco permaneceu em França, acabando por revelar-se escritor de talento. Foi eleito membro da Académie Française em 1970.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Alfred Jarry

Jarry viveu como quis com sua bicicleta, seu revólver e o seu absinto. Entre 1885 e 1888 ele já compõe comédias em verso e em prosa. Inspirado no sr. Hébert, seu professor de física e a encarnação de "todo o grotesco que existe no mundo", Jarry escreve uma comédia, Les Polonais, a versão mais antiga do Ubu rei. Em 1891-1892 ele é aluno de Bergson. Em 1894 apresenta Ubu rei na casa do casal Alfred (diretor do Mercure de France) e Rachilde Valette. Em 10 de Dezembro de 1896 ocorre a tumultuada estréia de Ubu rei. As montagens das peças de Jarry seguem-se, seguindo o fio dos ciclos de Ubu. Em 1896 ele compra uma bicicleta (novidade na época). Em vão o vendedor tenta fazer com que Jarry o pague. Escreve uma obra curiosa, Gestes et opinions du docteur Faustroll, pataphysicien, publicada postumamente, na qual expõe a patafísica, a ciência das soluções imaginárias.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Arlequim, Servidor de Dois Patrões (parte 1/11)

Karl Valentin: A ida ao teatro

Karl Valentin- Porque os teatros estão vazios

PROGRAMAÇÃO BONECO GIRA BONECO - BAURU 2013

http://www.bonecogiraboneco.blogspot.com.br/

Fernanda Montenegro - Uma Dica Para Atores

Improviso Teatral

A COMÉDIA DELL’ARTE

A Comédia Dell'arte, também conhecida como comédia italiana, chamava-se na Itália comédia buffonesca ou a soggetto. Mas, de todas essas denominações, a que prevaleceu mesmo foi Commedia Dell'arte. Até seu surgimento, os atores não se organizavam profissionalmente. Com a comédia Dell'arte, passaram a se especializar nas técnicas teatrais necessárias a representação improvisada (mímica, vocal, acrobática, cultural). Portanto, passaram a formar companhias de cômicos Dell'arte, constituídas por artistas profissionais. Foi a revolução do teatro popular; revolução que acabou prevalecendo sobre a Escola Clássica do Teatro Romano. Os cômicos Dell'arte se opunham a qualquer tipo de intelectualismo, não aceitavam nada que não fosse de âmbito popular, que não refletisse o pensamento popular. Sob a capa da sátira, reproduziam costumes e comportamentos de sua época. Interpretavam a vida sem disfarces. Pela primeira vez, as mulheres subiam ao palco. O Autor do texto escrevia apenas a linha geral dos acontecimentos, um esqueleto do enredo, denominado scenario. Deixava o diálogo inteiramente por conta dos atores que eram excelentes improvisadores e grandes mímicos. Cada ator criava o seu próprio tipo, as suas próprias reações e a sua própria linguagem. Marcavam, assim, profundamente a personagem, que representariam, salvo raríssimas exceções, por toda a vida. Eles passavam o humor por meio de gestos e palavras, emprestando irreverência e magia aos personagens. A mímica acompanhava as falas e se manifestava não exatamente pela fisionomia, pois quase sempre o rosto estava encoberto pela máscara, mas, sim, pelo jogo corporal. Acrescentavam à mímica o elemento acrobático - contorções, piruetas, cambalhotas, saltos mortais - muito importante para a realização da comicidade. A isso tudo, uniam dança e música. Nas interpretações usavam sempre figurinos e máscaras apesar de a igreja proibir o seu uso. Porém esses rebeldes artistas continuavam a usá-las; e, por esse motivo, muitos deles tiveram suas línguas cortadas. Os espetáculos eram apresentados nas festas ou nos mercados das mais importantes cidades italianas e expressavam o ideal humanista com cenas centradas no homem, na mulher e também nas ciências. A trama e a intriga caracterizavam os principais tipos da sociedade da época, como o comerciante, o doutor, o capitão e o padre. Esses personagens fixos se alternavam nas histórias que quase sempre giravam em torno de romances e intrigas da sociedade. O diálogo e a ação poderiam facilmente ser atualizados e ajustados para satirizar escândalos locais, eventos atuais ou manias regionais; misturados a piadas e bordões. Os Innamoratis (amorosos) eram considerados papéis sérios e se opunham aos anciões e bufões. Com um palco rusticamente adaptado numa carroça, os grupos da Commedia Dell’arte seguiam de cidade em cidade, com máscaras, faces e disfarces, fazendo sua critica, declarando seu amor, e, no fim, se despedindo com poesias e mensuras. As Personagens eram identificadas pelo figurino, máscaras, e até por objetos cênicos, como o porrete. Eis os principais: Arlecchino (Arlequim) – facilmente reconhecido pela roupa branca e preta com estampas em forma de diamantes. Representava o servo palhaço. Era acrobata, amoral e glutão. No carnaval é o bufão. Geralmente, o arlequim é servo do Pantalone, às vezes, do Dottore. Ele ama a Colombina, mas ela apenas o faz de idiota. Columbina – A contrapartida feminina do arlequim. Usualmente apresentava-se como inteligente e habilidosa. É uma das servas. Algumas vezes, utiliza roupas com as mesmas cores do arlequim. Brighella (Nani ou Pulcinella) – também um servo, porém mais esperto que o arlequim. Um trapaceiro imoral e desmerecedor de confiança. É uma personagem agressiva, dissimulada e egoísta. Pode roubar e até matar para atingir seu objetivo. Dottore Balanzone (o doutor) – aparenta ser um intelectual, mas geralmente essa impressão é falsa. É um velho rico, pedante, avarento e sem o menor sucesso com as mulheres. Usa uma toga preta com gola branca, capuz preto apertado sob um chapéu preto com as abas largas viradas para cima. Pantalone (Pantaleão) – comerciante judeu, rico e avarento, mas ignorante. É o arquétipo do velho pão-duro. Não se preocupa com mais nada além de dinheiro. Apresenta-se de cavanhaque branco e manto negro sobre o casaco vermelho. Il Capitano (Capitão) – forte e imponente, mas não necessariamente heróico, geralmente usa uniforme militar, mas de forma exagerada e desnecessariamente pomposa. Conta vantagens como guerreiro e conquistador, mas acaba desmentido. Capa e espada são adereços obrigatórios. Scaramuccia ou Scaramouche - é um pilantra covarde. Usa uma máscara de veludo negro, assim como também são suas roupas e seu chapéu. Um bufão, geralmente retratado como um contador de mentiras. Pulcinella - é esquisito, desfigurado e inspirador de pena. Na maioria das vezes, um corcunda. Sua personalidade pode ser a de um tolo ou de um enganador. Sua máscara tem um nariz grande e curvo, como o bico de um papagaio. Os Innamorati (enamorados) - o innamorato e a innamorata são os amantes e têm muitos nomes. (Isabella era o nome mais popular usado para a enamorada). São personagens jovens, virtuosos e perdidamente apaixonados um pelo outro. Usam trajes belos e de acordo com o período e a moda vigente. Nunca usam máscara e, geralmente, cantam, dançam ou recitam poemas. O mais conhecido enamorado é o Pierrot (Pedro ou Pedrolino), um servo fiel e totalmente devotado ao seu patrão. Forte, confiável, honesto, charmoso e carismático. Usa roupas brancas folgadas com um lenço no pescoço.

Teatro Medieval

Pas de deux, de Norman McLaren (1968)

domingo, 7 de abril de 2013

"Viagem do Capitão Tornado".completo e legendado PT Br - YouTube

"Viagem do Capitão Tornado".completo e legendado PT Br - YouTube

A CARTA de Karl Valentin

Personagens Ela ATO ÚNICO ELA (Escrevendo uma carta.) Munique, 33 de janeiro de 1925 e meio. Minha querida: É com a mão chorosa que eu se-guro a caneca para te escrever. Há tanto tempo que você não escreve.. , Por quê? Ainda mais depois que, não faz muito, você dizia numa carta que me escreveria, se eu não te escrevesse. Meu pai, também, escreveu-me on-tem. Ele me disse que te escreveu. Você, ao contrário, não escreveu nem uma palavra pra me dizer que ele tinha te escrito. Se você tivesse me escrito para me dizer que meu pai te escreveu, eu teria escrito ao meu pai dizendo que você gostaria de lhe escrever, mas que, infelizmente, não tinha tido tempo de lhe escrever, senão você já lhe te-ria escrito. Você não escreveu nenhuma carta responden-do aquelas que eu te escrevi, donde eu penso que essas estórias todas de escrituras, são bem tristes. Se você não soubesse ler, seria uma outra coisa, eu não iria te es-crever de maneira nenhuma. Mas você sabe escrever e você não escreve mesmo quando eu te escrevo. Eu ter-mino minha carta te escrevendo na esperança de que vo-cê me escreva, afinal. Senão será a última carta que eu te escrevo. Se, esta vez ainda, você não me escrever, es-creva-me ao menos para me dizer que você não quer mesmo me escrever, de maneira alguma. Eu saberei, dessa forma, porque você nunca me escreveu. Perdoe meu jeito ruim de escrever, mas é que eu tenho uma es-pécie de artrite típica dos que escrevem sempre. Isso a-contece sempre que eu escrevo. Você, evidentemente, não terá isso nunca, pois não escreve jamais. Minhas saudações e um beijo, Teu N. N.

KARL VALENTIN

De seu nome Valentin Ludwig Fey. Nasceu em Munique a 4 de Junho de 1882, filho de família modesta. Depois de alguns anos de trabalho como marceneiro, começa uma carreira de cantor popular nas cervejarias de Munique. Chega a organizar, sem êxito, uma digressão com uma grande orquestra de vinte instrumentos que ele acciona sozinho, graças a um mecanismo que inventou. É em 1907 que conhece, com O Aquário, o seu primeiro grande êxito. E passa a assinar Karl Valentin. Será em 1908, quando trabalha como actor em Frankfurter Hof, que conhece Liesl Karlstad que se viria a tornar a sua parceira em palco, durante cerca de trinta anos. Bertolt Brecht frequenta os seus espectáculos, toca na sua orquestra, reconhece a sua influência. Quando, por razões de saúde, Liesl Karlstad abandona a parceria em 1935, Valentin não encontra substituta à altura. A 1 de Abril de 1937, Samuel Beckett assiste ao seu espectáculo em Munique e comenta “Rimos tristemente.” Em 1942, Valentin retira-se para a casinha que tem em Plannegg, onde trabalha como amolador. Depois da guerra, tenta um regresso, com Liesl Karlstadt – mas passam desapercebidos. Quase esquecido, Karl Valentin morre de pneumonia a 9 de Fevereiro de 1948. O seu teatro é redescoberto nos anos 70, a partir das traduções que foram feitas em França, por Jean-Jourdheuil e Jean-Louis Besson (Éditions Théâtrales), tendo desde então sido reconhecido como um dos maiores autores cómicos de sempre.